terça-feira, 29 de dezembro de 2015

17/05/1985


- Ó Aníbal! Aníbal!... Vê se não te esquece a gravata das riscas vermelhas!

Absorto e pensativo, Aníbal mal ouvira o que Maria lhe gritara da cozinha no andar de baixo. Ainda assim, parou mecanicamente o que estava a fazer e dirigiu-se com lentidão ao grande armário. Pela janela aberta do quarto entrava a fresca matinal de um Maio soalheiro. A divisão estava imaculadamente arrumada, sem vestígio de pó. Apesar disso, à superfície de todo aquele asseio impunha-se a ligeira entropia que denuncia uma partida eminente... Por cima do édredon laranja uma pequena mala de viagem permanecia ainda aberta, com um espaço calculado para a nécessaire entre as peúgas impecavelmente enroladas e o pijama de algodão novo. Camisas em cruzetas juncavam o resto da cama. Da porta escancarada do armário pendiam dois porta-fatos. Foi num deles que pendurou a tal gravata, berrada segundos antes, evitando-se assim que ficasse esquecida por Boliqueime.

Eram quase oito da manhã. Avesso ao seu costume metódico e espartano, quase todos os preparativos tinham sido deixados para a última da hora. Maria batia já as portas no rés-do-chão, sinal de que o tempo começava a parecer-lhe escasso. Nada que ele não tivesse previsto. O tempo era, pois, adequadamente escasso. A aranha urdia a sua teia devagar e resolutamente. Um meio-sorriso, sempre raro nele, assomou-lhe aos lábios enquanto reflectia nesses detalhes... Os dados estavam já lançados, movendo-se pelo ar com lentidão igual à da longa viagem em direcção a Norte. E como o diabo está nos detalhes, aquele atraso seria o primeiro e mais imediato motor da sua proverbialidade. Encadeada pelos raios matutinos, que agora caíam em cima da cómoda, o brilho reluzente da coroa de filigrana da Virgem prendeu-lhe o olhar, enquanto procurava fechar a pequena nécessaire. A ironia não lhe escapou. Já pensara no diabo, agora fixava-se naquele o mais terreno dos atributos da Senhora. Em verdade se poderia dizer que antecipava um tempo mais próprio para ídolos dourados do que para a candura sofredora daquela mãe impoluta. Le veau d'or est vainqueur des Dieux, cantava o Outro... Mas a insistência daquele brilho quase pagão pareceu-lhe uma insídia; arrepiou-se com um esgar, temendo algum agoiro fortuito. Refez-se do susto benzendo-se lentamente, com um suspiro resignado. Encomendou também uma prece ao S.Cristovão, pelo sim pelo não, quase embevecido pela lembrança súbita das estatuetas da devoção, omnipresentes nos carros que vira em menino, ali mesmo ao lado de casa, na bomba de gasolina. Carros que chegavam e partiam rápido, para seu desespero latente, temeroso de um desterro perene naquela província envergonhada, meio caminho entre Faro e coisa nenhuma.

Maria brindou-o com um sorriso pleno quando finalmente desceu as escadas. Não precisou de lhe dizer nada, como outrora certa duquesa tivera de fazer. Era a hora e ambos o sabiam. Saíram de casa em silêncio, caminhando até ao carro que os aguardava no pátio. Aníbal tinha trocado, havia poucos dias, o velho BMW por um novíssimo Citroen Bx branco pérola. Imaginava o que diriam as parangonas da semana seguinte... Era mais um objecto de mística para a vida política de um país sempre ávido de arcanos e de encobertos.

Com a viagem finalmente iniciada, tentava agora pensar o menos possível no destino e nas circunstâncias da hora. Parecia-lhe que a melhor maneira de fazer uma narrativa vingar era comportar-se estritamente como a personagem designada e nunca como um narrador omnipotente... Assim fizera durante toda a vida até então, tanto nos tempos do antigamente como nos dez anos subsequentes. O triunfo da narrativa exigia-se ali mais do que em qualquer outro dos seus dias. A chegada de improviso ao Congresso - ostensivamente apenas para rodar o novo Citroen - seria a chave da parada. Uma jogada de alto risco, cozinhada horas a fio, ao telefone e em cafés esconsos, com o Manuel, o Fernando, o jovem Pedro e uns poucos outros. O falecimento de Mota Pinto há pouco mais de uma semana agudizara a premência de uma nova figura paterna para um partido à deriva no marasmo do bloco central. Machete e Marcelo - como de costume - só moveriam as peças garantido o incenso, uma improbabilidade em águas tão turvas. Salgueiro talvez tivesse os apoios, mas faltava-lhe gravitas... 

Entre a fuga constante e necessária a estas meditações, conversas sobre os filhos e uma dezena de rádios regionais, chegaram às imediações do Canal Caveira pouco passava das onze. Ponderaram parar para um gaspacho ou umas migas, mas Maria queria ainda acender uma vela na Igreja da Senhora da Conceição do Cadaval, além de que os nervos iam impedindo apetites de monta... Ficaram-se por pão e queijo, trazidos de casa, e seguiram caminho pelas velhas estradas. O vogar vagaroso daquelas nacionais encantava-o e exasperava-o em igual medida... Não se pareciam em nada com as vias de um país virado para o futuro; eram ainda os caminhos de uma terra que se quis de gente acastelada, acabrunhada e incomunicante. Dois ou três camiões juntos por mero acaso provocavam filas de quilómetros, em que qualquer tentativa de ultrapassagem acarretava o risco de desastre iminente. Mas, por outro lado, naquele ritmo de Carousel da Kodak o Portugal genuíno que lhes tinham ensinado a amar parecia permanecer ainda. Não passava por um casebre, um rebanho, um ninho de cegonha ou um arrozal sem que os olhos lhe fugissem por instantes da traseira do carro à frente, com um sorriso pueril, estranho naquela face cinzelada.

- Olha a saída para o Cadaval, Aníbal...

Rodou lentamente a viatura para fora da nacional e continuou imerso nos pensamentos que ad initium desejara exorcizar. Uns quilómetros mais à frente, ainda absorto, foi incapaz de se aperceber de um ferro por ali abandonado, quase mesmo na berma. Sentiu apenas a forte pancada nas entranhas do carro, seguida quase imediatamente pela síncope das engrenagens. Parou assim que lhe foi possível e saltou para a estrada... Havia um rasto negro espalhado pelos últimos metros de alcatrão fervente. Apercebeu-se, com uma pontada no coração, de que o carro não passaria daquele ermo. Ignorou sem esforço o choro ululante da mulher, tentando escavar uma solução. Mas apenas se conseguiu concentrar, com excruciante precisão, nas perlas de suor que lhe desciam, geladas, pelas costas abaixo...

Era já quase chegado o fim da tarde quando finalmente uma velha carrinha abrandou ao lado do carro imobilizado. Pouco havia a fazer ali, por isso treparam ambos para cima da caixa aberta, seguindo até à vila sentados em sacos de serapilheira. O único carro de praça estava ao serviço em parte incerta, e sendo sábado a oficina nem abrira durante a tarde... Ao cabo de meia hora conseguiu ligação para o Casino da Figueira, onde imperava o alvoroço entre a clique dos seus conspiradores. Salgado brilhara no discurso e o jovem Pedro, debalde grandes esforços, não conseguira recuperar a atenção da militância. A impossibilidade da chegada próxima do Professor ao Congresso ditaria na certa a ruína dos planos... Pousou com lentidão o telefone no descanso e saiu do cafézito, deixando a esposa sentada com o chá, num pranto agora mais sereno. Foi, em mangas de camisa e já sem gravata, até às escadas da Igreja, onde se sentou, mudo, na meia-luz do entardecer.

Segunda-Feira, dia 19 de Maio, Aníbal atravessou rapidamente os corredores ainda vazios da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Eram 7h30 da manhã. Deteve-se um instante diante da placa com o seu nome gravado a letras douradas, antes de rodar a maçaneta e fechar a porta com estrondo atrás de si.



MLB

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