Recordo o sujeito de uma tarde da SIC assolado pelo dom de,
na cara do próximo, lhe subtrair os males do corpo. Literalmente: quando
conhecia alguém assustava-se com a obstipação latente no lábio inferior
inchado, os pulmões entupidos revelados no rubor das maçãs do rosto, a
abstinência sexual óbvia da acne no queixo. Na simetria espelhada em ambos os
lados da face do novo amigo vislumbrava as dissemelhanças entre os
progenitores. Um horror.
Por estes dias, como uma qualquer drástica mediunidade,
ouvir falar da Constituição é uma tortura. Esse empecilho tremendo. Porque raio
haveríamos de nos limitar a um papel piroso cheio de falsas proclamações desse
tempo tão desenvoluído que foram os
anos 70? Há-de ser uma coisa terrível e tremendamente mal escrita, com uma
cabeleira muito pirosa. Sem acordo ortográfico, ainda por cima, os atos são actos e, se calhar, as pharmacias ainda estão autorizadas a
existirem. Percebo agora a ‘manta de retalhos’. Em defesa Dela avento que, se
soubesse ao que vinha, preferia não ter nascido. E o Jorge Miranda foi um mau
pai.
Sou relativamente moderado quanto à Vestfália das esquerdas.
Olho-a com a esperança de um ingénuo e a sobriedade desconcertante de um tuga.
Reconheço, sob fortíssima contestação de alguns aqui vizinhos de opinião, que
há um deficit de legitimidade deste
bloco parlamentar.
Não ficou preto no branco que o contrato fosse acontecer e
poderão ter havido votos defraudados. [Mais ou menos verdade poucos acreditarão
que, dado o extremismo dos últimos quatro anos, e mesmo sabendo da aliança
pós-sufrágio, os votos destas três (ou quatro?) esquerdas se eclipsassem para a
PàF.]
O que aqui vai dito, salvo melhor entendimento, nada tem que
ver com a Constituição – que não autoriza eleições - e o equilíbrio de poder.
Negar que a relação de forças Partidos-AR-Governo é indubitavelmente votada ao
favorecimento de consensos parlamentares é de uma cegueira escabrosa. Dolosa,
sem dúvida.
A situação piora quando juristas de renome, gente conhecida
da praça, autênticos dotores, andam
para aí a falar de golpe de estado. E é constitucional! Fico confuso. Como pode
a pobre lei fundamental dar guarida a esses pulhas? Está explicado. A
Constituição, como qualquer pobre órfão, é de esquerda, ah pois é. Essa safada.
Dizem. Se o povo acredita? Não sei, mas que duvida, ai isso duvida. Como na
história de Pedro (aquele coelho) e o Lobo, quando o golpe vier ninguém acredita.
Toda a gente ri. Deles, e pior, da Constituição.
Quem tem maioria governa, valha-nos deus. Há males (que até podem ser bens) para os quais nem o analfabeto é suficientemente cego, nem a morfina é paliativo que chegue da catarse. Isto dito,
- Aceita que dói menos.
MR
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